Por que você precisa saber o que é fracking?

no fracking

Sabemos que essa palavra estrangeira é desconhecida para muitos, mas é importante – e urgente – entender uma atividade devastadora como o fracking, que chega a ser proibida em muitos países, mas tenta se expandir sorrateiramente no Brasil e já impacta a América Latina.

Também conhecido como fraturamento hidráulico – ou até “fracking hidráulico” -, o fracking é uma técnica utilizada para realizar perfurações para a extração de gás de xisto ou folhelho.

Essa é uma técnica de extração considerada não-convencional, porque consegue acessar as rochas sedimentares de folhelho no subsolo e, assim, explorar reservatórios que antes eram impossíveis de serem atingidos.

Por meio da tubulação instalada nessas perfurações, é injetada uma grande quantidade de água em conjunto com solventes químicos comprimidos – alguns até mesmo com potencial cancerígeno.

A grande pressão gerada por essa água provoca explosões que fragmentam a rocha. Consegue imaginar o alcance desse tipo de atividade e como ela pode ser perigosa? Vamos explicar mais um pouco.

Alguns estudos mostram que mais de 90% de fluidos resultantes do fracking podem permanecer no subsolo. O fluido do fraturamento que retorna à superfície, normalmente armazenado em lagoas abertas ou tanques no local do poço, causa impactos como a contaminação do solo, ar e lençóis de água subterrânea.

Entenda todos os perigos que envolvem a prática:

  1. Contaminação da água que bebemos

Para fraturar o poço, de dois a dezesseis milhões de galões de água são utilizados – de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) – misturados com produtos químicos que causam câncer e injetados no subsolo.

A água usada para fraturamento hidráulico é normalmente água doce retirada de recursos hídricos subterrâneos e superficiais. Algumas dessas fontes também fornecem água potável.

Essas atividades de fracking podem sobrecarregar áreas onde os suprimentos de água doce para beber, irrigação e ecossistemas aquáticos são escassos (e muitas vezes se tornam mais escassos devido às mudanças climáticas).

A água usada para fraturar é muito contaminada para retornar à sua fonte sem tratamento extensivo e, portanto, normalmente é descartada no subsolo, onde é removida do ciclo de água doce.

Cada poço pode ser fraturado várias vezes, o que significa que cada poço de fraturamento pode contaminar propositalmente centenas de milhões de galões de água doce como parte das operações normais.

A água contaminada usada no fracking também pode vazar ou derramar, poluindo aquíferos subterrâneos e outros cursos d’água.

O processo do fraturamento hidráulico normalmente requer 11 milhões de litros de água por poço, o que é até 100 vezes mais do que os métodos tradicionais de extração. Isso varia muito dependendo das propriedades geológicas do poço.

Apenas para citar um exemplo, na Pensilvânia, uma das regiões mais controladas pelo fracking nos Estados Unidos, um poço de fraturamento hidráulico operado pela empresa Chesapeake Energy Corp. apresentou defeito em abril de 2011, expelindo milhares de galões de água de fracking contaminada por mais de 12 horas.

Já em 2017, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, Colorado e Dartmouth, divulgaram estudo em que constataram o descarte de água residual pelo fracking como fonte de contaminação de lago na Pensilvânia.

Foram encontradas nas amostras altos níveis de substâncias danosas ao meio ambiente e para saúde humana em instalações que, limitadamente, tratam a água residual da exploração do xisto. Entre os elementos encontrados estão substâncias cancerígenas e disruptores endócrinos químicos.

No Karoo, uma terra árida na África do Sul, um plano para começar atividades de fraturamento hidráulico foi contestado por moradores locais que se preocupavam em competir por água.

  1. Poluição do ar que respiramos

Tosse, falta de ar e respiração ofegante são as queixas mais comuns de residentes que vivem perto de áreas de fracking.

Além dos problemas com a qualidade da água, os poços de fracking liberam compostos extremamente perigosos para o ar, como benzeno, etil benzeno e tolueno. A exposição a esses químicos tem sido associada a defeitos congênitos, problemas neurológicos, doenças do sangue e câncer.

Da mesma forma, uma mistura de resíduos tóxicos de água e produtos químicos é frequentemente armazenada em fossas abertas, liberando compostos orgânicos voláteis no ar.

O benzeno, por exemplo, é um conhecido agente cancerígeno, de acordo com a American Cancer Society.

Em 2012, pesquisadores da Colorado School of Public Health divulgaram um estudo mostrando que a poluição do ar causada pelo fracking pode contribuir para problemas de saúde imediatos e de longo prazo para as pessoas que vivem perto de locais de fraturamento hidráulico.

Um estudo realizado em 2016 por pesquisadores de Michigan (EUA), que se reuniram para fiscalizar as emissões de etano na reservatório de xisto da Dakota do Norte, apontou que altas emissões de etano, hidrocarboneto encontrado na exploração de combustíveis fósseis, colaboram para diminuir a qualidade do ar.

Enquanto isso, os trabalhadores desse ramo enfrentam riscos ainda maiores de exposição local a produtos químicos tóxicos e outros materiais transportados pelo ar, incluindo sílica (o principal componente da areia usada para o fracking), que pode levar a doenças pulmonares e câncer quando inalados.

Recentemente, também publicamos aqui que um novo estudo apontou que pacientes com insuficiência cardíaca que moram em regiões onde há fracking têm maior probabilidade de serem hospitalizados.

  1. Mudanças climáticas

Segundo os pesquisadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, o metano é um gás de estufa 100 vezes maior em calor absorvente do que o dióxido de carbono, enquanto os dois gases permanecem na atmosfera. E é 86 vezes mais danoso quando comparado com uma média de 20 anos após a emissão.

Quando as emissões de metano são incluídas, a pegada de gases de efeito estufa do gás de xisto é significativamente maior do que a convencional gás natural, carvão e petróleo.

Devido ao aumento do desenvolvimento do gás de xisto nos últimos anos, as emissões totais de gases de efeito estufa provenientes do uso de combustíveis fósseis nos Estados Unidos aumentaram.

Dadas as projeções para expansão contínua da produção de gás de xisto, essa tendência de aumentar as emissões de gases de efeito estufa de combustíveis fósseis é prevista para continuar até 2040.

Artigo científico divulgado em 2010 mostra as consequências do fechamento dos poços de perfuração logo após esgotarem os recursos naturais, trazendo consigo problemas ambientais de grande escala.

Este artigo trata dos males que os poços de perfuração inativos causam depois de serem fechados. O vazamento de gás nesses poços inativos facilita a emissão direta à superfície dos gases de efeito estufa e a contaminação da água subterrânea.

  1. Propensão a terremotos

Nos Estados Unidos, país onde mais há atividade de fracking, muitas áreas que não eram consideradas propensas a terremotos, como Ohio e Oklahoma, estão experimentando uma atividade sísmica fora do normal.

Um estudo de 2016 descobriu que as chances de um terremoto prejudicial ocorrer em partes de Oklahoma e alguns estados vizinhos são tão prováveis ​​quanto na Califórnia, que é conhecidamente propensa a terremotos.

Estudiosos acreditam que o fracking seja a causa do terremoto mais forte registrado em Oklahoma em 2011 e mais de 180 tremores no Texas entre 2008 e 2009. Em 2015, uma área do norte do Texas teve nove terremotos confirmados em um período de 24 horas.

Dois estudos de 2015 sugeriram que falhas ocultas abaixo da superfície podem explicar terremotos em zonas de fraturamento hidráulico.

  1. A saúde é muito mais prejudicada do que se imagina

Um estudo da Universidade Johns Hopkins analisou registros de quase 11.000 mulheres com recém-nascidos que viviam perto de locais de fracking e descobriu uma chance 40% maior de terem um bebê prematuro e um risco de 30% de desenvolverem uma gravidez de risco.

Com intuito de mostrar a relação entre a taxa de mortalidade infantil com a exploração do fracking, uma pesquisa constatou em 2017 o aumento nos casos de mortalidade infantil em Washington.

Pesquisadores afirmam que bebês nascidos nessa região, entre os anos de expansão do fracking, estão 28% mais propensos a morrer no primeiro mês do que aqueles nascidos num período pré-expansão do fracking.

Os fatores contribuintes provavelmente incluem poluição do ar e da água, estresse do barulho e tráfego.

Outros estudos constataram que o ruído da própria perfuração, dos compressores de gás, de outros equipamentos pesados ​​e do tráfego de caminhões é alto o suficiente para perturbar o sono, causar estresse e aumentar a pressão arterial.

A exposição prolongada à poluição sonora contribui para anormalidades endócrinas e diabetes, doenças cardíacas, estresse e depressão, e tem sido associada a dificuldades de aprendizagem em crianças.

A privação do sono tem consequências generalizadas para a saúde pública, desde a causa de acidentes e doenças crônicas.

  1. Investimento em fracking prejudica energias renováveis

Embora o gás seja barato, as concessionárias estão investindo pesadamente em usinas termelétricas, o que reduz projetos de energia renovável.

O capital de investimento limitado é usado na construção de novas usinas de gás fóssil, em vez de painéis solares em grande escala ou outros projetos verdadeiramente renováveis.

Isso tem repercussões de longo prazo, porque ficaremos presos ao uso de gás para energia por anos no futuro, uma vez que a infraestrutura esteja pronta.

Fracking no Brasil e na América Latina

Embora o fracking tenha crescido muito nos últimos anos, as pesquisas sobre o quão seguro é para a saúde humana e o meio ambiente não vêm acompanhando o ritmo.

Muitas perguntas permanecem sobre os perigos do processo, com evidências crescentes levantando sérios sinais de alerta sobre os impactos negativos e, muitas vezes, irreversíveis.

Hoje, entre os países que exploram o xisto comercialmente em escala estão os EUA, Canadá, China e Argentina. No país sul-americano, as consequências são intensas. A produção de maçãs foi completamente comprometida, e o número de terremotos em áreas onde há o fracking subiu assustadoramente.

Em 2004 na província de Neuquén teve um abalo sísmico; em 2005, nenhum; em 2006, um; 2007, 2008, 2009 e 2010, nenhum abalo. Em 2011 o fracking foi iniciado e houve 4 abalos. A cada ano o número aumenta e, apenas em 2019, Neuquén teve 34 terremotos.

O problema da exploração do xisto pelo fracking na região da patagônia argentina conhecida como Vaca Muerta é a grave contaminação do solo e da água local – fato já comprovado. Outro problema é a blindagem que as autoridades estão fazendo para impedir que a população fique contra esses empreendimentos.

Nos últimos anos, o governo brasileiro e a indústria do petróleo e gás vêm somando esforços para explorar o gás natural de rochas, através do processo de fracking. O primeiro leilão de lotes com reservas foi feito no final de 2013 e outro foi realizado em 2015.

Buscando impedir a exploração e evitar desastrosos danos ambientais, foi fundada em setembro de 2013 a COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil, hoje formada por ambientalistas, cientistas, geólogos, hidrólogos, engenheiros, biólogos e gestores públicos, que de lá para cá têm realizado uma série de ações, incluindo audiências públicas em diversos estados brasileiros.

No Brasil, graças a uma longa jornada de mobilizações junto à Coalizão Não Fracking Brasil e ao Instituto Internacional Arayara, a prática do fracking foi proibida em vários estados brasileiros. Agora, o próximo passo é a criação de uma lei federal.

Uma grande vitória foi a proibição do fracking em Santa Catarina – em Papanduva, por exemplo, já havia empresas interessadas em começar essa prática.

No Uruguai, o Brasil chegou a ser exemplo da campanha anti-fracking. Após uma forte campanha junto ao parlamento, foi decretada a moratória da exploração de xisto.

Na época, foi apresentada aos uruguaios a legislação paranaense que proíbe a exploração do gás de xisto pelo método de fraturamento hidráulico em todo o estado.

A luta para banir o fracking é a mesma luta pelas energias renováveis, pela preservação da vida e pelas mudanças que precisamos realizar urgentemente devido à emergência climática que vivemos. Todas as ações que realizamos em todo o Brasil visam conscientizar a sociedade desse método tão danoso e que se soma à lista de ameaças ambientais e sociais que o nosso país coleciona”, ressalta o engenheiro Juliano Bueno de Araújo, fundador e diretor da Coalizão Não Fracking Brasil (COESUS).

Acreditamos que nossa campanha ganha muito mais força com a participação popular e com o entendimento do que é essa prática. Por isso, convidamos todos a participar, dialogar e se juntar às nossas ações contra essa prática predatória, devastadora e que ameaça a vida humana, as nossas terras e o nosso planeta.

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