Fusão das petrolíferas Chevron e ExxonMobil: Um retrocesso perigoso

vazamento chevron

Foto: Vazamento de petróleo da Chevron esta semana na Baía de San Francisco (Ray Chavez/Bay Area News Group)

Este mês nos deparamos com a notícia de que os CEOs da Chevron e ExxonMobil – as duas maiores petrolíferas dos Estados Unidos – conversaram sobre a possibilidade de fusão das duas empresas por conta do impacto negativo da pandemia no setor. A informação divulgada pelo Wall Street Journal surpreende e preocupa.

Em um momento no qual todo o planeta discute tanto sobre alternativas sustentáveis, mudanças climáticas e transição energética, a possibilidade dessa fusão – que estaria entre as maiores da história – e do fortalecimento da exploração de combustíveis fósseis soa como um retrocesso perigoso.

Esta semana, uma refinaria de petróleo da Chevron na Califórnia já esteve envolvida no vazamento de cerca de 600 galões de petróleo na Baía de San Fracisco.

O vazamento não foi detectado até que um brilho de óleo na água perto da refinaria foi notado pelos moradores locais, que reclamaram da fumaça do vazamento. As autoridades ainda alertaram que a fumaça poderia causar irritação nos ouvidos, nariz e garganta.

A mesma empresa esteve por décadas envolvida em uma série de denúncias de comunidades indígenas do Equador por contaminar territórios da selva equatoriana e chegou a ser condenada a pagar 9,5 bilhões de dólares – mas conseguiu se livrar da multa em 2018. As comunidades ainda denunciaram sofrer perseguições por conta do caso.

No ano passado, uma pesquisa da Climate Accountability Institute, nos EUA – líder mundial em pesquisas sobre o papel das grandes petrolíferas na escalada da emergência climática – já citava a Chevron e ExxonMobil como duas das principais poluidoras do planeta.

A pesquisa do instituto apontou as 20 empresas de combustíveis fósseis cuja exploração indiscriminada das reservas mundiais de petróleo, gás e carvão pode estar diretamente ligada a mais de um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa na era moderna.

Para se ter uma ideia, a Chevron liderou a lista das empresas americanas, seguida justamente pela Exxon, depois BP e Shell. Juntas, as quatro estão por trás de mais de 10% das emissões de carbono do mundo desde 1965.

Fonte: Climate Accountability Institute

Neste período, as 20 empresas da lista emitiram 493 bilhões de toneladas de dióxido de carbono e metano – o equivalente a 35% de todas as emissões de combustíveis fósseis e cimento em todo o mundo.

A ascensão das energias renováveis

Apesar de as principais petrolíferas dos EUA ainda resistirem à mudança para as energias renováveis, várias das maiores empresas de energia do mundo têm comprometido altos investimentos para a transição energética global.

Mesmo com uma queda geral nos gastos por causa da pandemia, algumas empresas de energia estão dispostas a investir com força em grandes projetos de baixo carbono para sair na frente dos concorrentes.

As principais petrolíferas europeias reconhecem este movimento e começam a diversificar suas operações, incluindo o investimento em energia renovável.

A Total – petrolífera francesa – até planeja mudar seu nome para TotalEnergies para melhor refletir seu envolvimento em fontes de energia variadas. A mudança segue a Statoil da Noruega, que mudou sua marca para Equinor.

Os principais motivos das mudanças estão nas políticas de mudanças climáticas e nas pressões para que as petroleiras comecem a descarbonizar.

A transição energética não é só uma realidade, mas uma necessidade crucial do planeta. Vivemos uma emergência climática que prevê consequências sérias e irreversíveis para a humanidade. A sociedade civil, as organizações e até as políticas mundiais estão se voltando para o tema. A fusão de duas empresas marcadas por históricos de devastação pelo mundo só é sinônimo de retrocesso”, ressalta Juliano Bueno de Araújo, diretor da Coalização Não Fracking Brasil e do Observatório do Petróleo e Gás.

A conversa sobre a fusão das duas petrolíferas parece não ter ido para frente, mas parmanecemos atentos. O diálogo deve ser outro, sobre alternativas e novas formas de energia.

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