Organizações e movimentos da sociedade civil repudiam acordo assinado entre mineradoras Samarco/Vale/BHP e os Poderes Públicos

O Comitê Nacional Em Defesa dos Territórios Frente a Mineração e a Articulação Internacional das Atingidas e dos Atingidos pela Vale repudiam o acordo firmado entre as mineradoras Samarco, Vale e BHP e os poderes públicos federal e estaduais. O acordo, se homologado pelo juiz da 12a Vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais, encerra a ação civil pública que está sendo movida contra as empresas pelas violações de direitos humanos, sociais e ambientais decorrentes do rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015.

Lama da Samarco na região de Mariana - Foto: Ricardo Moraes/REUTERS
Lama da Samarco na região de Mariana – Foto: Ricardo Moraes/REUTERS

Nesta quarta-feira, dia 2 de março, uma cerimônia realizada no Palácio do Planalto formalizou publicamente o acordo firmado entre as mineradoras e os poderes públicos. Desde a semana passada, o Comitê e a Articulação vem monitorando o andamento das negociações deste acordo extrajudicial. A minuta do acordo foi divulgada no último dia 24 pela Agência Pública, em matéria intitulada “Samarco, Vale e BHP vão decidir quem e como indenizar por desastre”. Dentre as partes do acordo, constam Governo Federal, o Estado de Minas Gerais e o Estado do Espírito Santo, além de diversos órgãos federais e estaduais de fiscalização, regulação e monitoramento ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a Agência Nacional de Águas (ANA).

O acordo impacta severamente a população dos municípios afetados pelo desastre, em Mariana e ao longo de toda a bacia do Rio Doce. Ele cria uma Fundação privada que confere às mineradoras o poder de tratar de cada violação de direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais no varejo. A Fundação, financiada pela Samarco, Vale e BHP, irá acertar o valor das indenizações com cada um dos atingidos, de maneira isolada, e poderá contratar advogados caso os atingidos discordem da indenização proposta. Isto significa que as empresas responsáveis pelo desastre e pelas violações de direitos humanos dele decorrentes propõem e negociam um valor de indenização. Se não for aceito pelos atingidos e indiretamente impactados, estes podem se utilizar de advogados custeados pela própria Fundação para processar ela mesma. Esse mecanismo viola frontalmente as garantias do devido processo legal.

Lama da Samarco na foz do Rio Doce - Foto: Paulo de S. Lima
Lama da Samarco na foz do Rio Doce – Foto: Paulo de S. Lima

Esse é apenas um dos mecanismos perversos que este acordo pretende implementar, o qual não contou com a presença de atingidos ou de movimentos sociais em sua elaboração. Foi feito totalmente às escuras, e sua divulgação apenas veio à tona com matéria realizada pela Agência Pública. Este acordo é uma afronta aos direitos de todas as pessoas que sofrem com os efeitos deste desastre em suas vidas. E a ideia de que tudo possa ser ‘resolvido’ a portas fechadas entre as empresas e o poder público é uma afronta à coletividade. A extinção da ação civil pública por meio de um acordo desse tipo convém apenas às empresas, pois assinado o acordo e homologado não existe recurso que possa desfazê-lo. E com as partes autoras implicadas no acordo, não há como recorrer.

O acordo também viola os direitos de comunidades indígenas e tradicionais afetadas ao longo da bacia do Rio Doce. Essas comunidades não foram igualmente comunicadas da existência desta negociação, o que frontalmente viola o seu direito à consulta livre, prévia, e informada, garantido pela convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Foz do Rio Doce, Regência (ES) - Foto: Paulo de S. Lima
Foz do Rio Doce, Regência (ES) – Foto: Paulo de S. Lima

Os programas executados pela Fundação seriam fiscalizados por um Comitê Interfederativo, composto por representantes do poderes executivos estaduais e federal. Da análise da minuta divulgada pela imprensa, se depreende que este Comitê exerce dois papéis: um relacionado ao apoio e definição das atuações da Fundação na elaboração e execução dos programas, e outro relacionado à fiscalização da execução destes mesmos programas. Há, contudo, o temor de que a independência de atuação de órgãos de regulação e fiscalização, como o Ibama, o DNPM, a ANA, bem como órgãos estaduais do Espírito Santo e Minas Gerais, seja constrangida pelos termos do acordo.
A minuta do acordo divulgada na quarta-feira estimava o valor dos danos em 20 bilhões de reais, mas, segundo as informações divulgadas pela imprensa na última sexta-feira, a versão atual do acordo implica o pagamento de apenas 4,4 bilhões de reais nos primeiros três anos, de forma parcelada. O montante restante, de valor ainda incerto, seria desembolsado ao longo de dez anos.

Segundo informações repassadas pela Assessoria de Imprensa da Advocacia Geral da União ao Comitê em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, a minuta divulgada pela Agência Pública estaria defasada em relação às negociões mais recentes, mas a falta de transparência e de prestação de contas por parte dos governos federal e estaduais e dos órgãos públicos implicados foi tamanha durante todo este processo, que os movimentos e organizações da sociedade civil sequer tiveram acesso aos termos atualizados deste acordo. Ou seja, uma negociação que impacta a vida de milhões de pessoas ao longo de toda a bacia do Rio Doce correu, até o final, completamente blindada e sem nenhum diálogo com as vítimas.

Lama da Samarco na foz do Rio Doce - Foto: Gabriela Biló/Estadão
Lama da Samarco na foz do Rio Doce – Foto: Gabriela Biló/Estadão


O mundo inteiro testemunhou a vida de milhares de pessoas sendo devastadas por essas empresas. Com a assinatura deste acordo, a violação de direitos humanos, sociais, econômicos e ambientais torna-se agora um grande negócio.
Os direitos humanos são inegociáveis, nossa vida e nossa natureza não estão à venda!

Assinam:

Abrace a Serra da Moeda
AMAR Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária / Paraná
APROMAC Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte / Paraná
ARCA AMASERRA
Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale
Articulação Nacional de Quilombos
ASA Minas Gerais
Associação BEM TE VI Diversidade
Associação Nacional de Ação Indigenistas (ANAI)
Associação Alternativa Terrazul
Associação para Gestão Socioambiental do Triângulo Mineiro (Angá)
Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade – AFES
Ame a Verdade – Evangélicos contra a Corrupção
Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)
Blog Combate Racismo Ambiental
Brigadas Populares
CAA – Norte de Minas
Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI
Centro Franciscano de Defesa dos Direitos
CEPASP
Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular
Coletivo Permasampa
Comissão Pastoral da Terra (CPT – Nacional)
Comissão Pastoral da Terra (CPT- MA)
Comissão Pastoral da Terra (CPT- Marajó)
Comissão Pró-Índio de São Paulo
COMISSÃO PAROQUIAL DE MEIO AMBIENTE- CAETITÉ-BAHIA
Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs – MA)
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria – CNTI
Conselho Indigenista Missionário – CIMI Nacional
Conselho Indigenista Missionário (CIMI – MA)
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – Leste II (MG e ES)
Cooperativa Agroextrativista Grande Sertão
CSP CONLUTAS
Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA-NM
COESUS- Coalizão Não Fracking Brasil
Departamento Profissional Nacional Extrativo / DEPRONEX-CNTI
Expedição Rio Doce Vivo
FASE – Solidariedade e Educação
FBOMS – FÓRUM BRASILEIRO DE ONGS E MOVIMENTOS SOCIAIS PARA O MEIO AMBIENTE E O DESENVOLVIMENTO
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias de Papel e Papelão de Minas Gerais
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário de Minas Gerais
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Minas Gerais
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Fiação e Tecelagem de Minas Gerais
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas de Minas Gerais
Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas de Minas Gerais
FONASC
Fundação Acangaú para Conservação e Uso Sustentado de Ecossistemas Naturais (Paracatu – MG)
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Fundação Cooperlivre Arayara
GESTA-UFMG
Greenpeace
Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente da Universidade Federal do Maranhão (GEDMMA/UFMA)
Grupo de Pesquisa Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS)
Guará Associação dos Guardiões da Rainha das Águas
IARCA AMASERRA
IBEIDS – Instituto Brasileiro de Educação, Integração e Desenvolvimento Social
Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena
INESC
Instituto AQUA XXI / Belo Vale- MG
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase
Instituto de Permacultura EcoVida São Miguel
Instituto Guará
Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS
Instituto Socioambiental – ISA
Irmãs de Notre Dame de Namur
Índio É Nós
Jornal Vias de Fato – MA
Justiça Global
Justiça nos Trilhos
Kaluana
Laboratório de Cenários Socioambientais – Labcen (PUC Minas)
Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Espaço Agrário e Campesinato (LEPEC UFPE)
MACACA
Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)
Movimento Pela Moralidade Publica e Cidadania – ONG Moral
Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela
Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM
Movimento pelas Serras e Águas de Minas – MovSam
Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM)
Movimento Águas e Serras de Casa Branca
Nova Central Sindical de Trabalhadores – NCST
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Questão Agrária (NERA – UFMA)
Núcleo de Extensão e Pesquisa com Comunidades Rurais, Negras, Quilombolas e Indígenas (NuRuNi – UFMA)
Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental / UFSJ
Observatório dos Conflitos no Campo (OCCA)/ UFES
Plataforma Dhesca – Brasil
Proteste
PAD – Processo de Articulação e Diálogo
Radio Brota
REAJA – Rede de Artticulação e Justiça Ambiental dos Atingidos do Projeto Minas-Rio
RBJA – Rede Brasileira de Justiça Ambiental
Rede Educafro Minas
Serviço Franciscano de Justiça, Paz e Integridade da Criação
Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – Sinfrajupe
Serviço SVD de JUPIC
Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração de Ferro e Metais Básicos de Congonhas, Ouro Preto, Belo Vale e Região – Metabase Inconfidentes
Tânia Pacheco
TOXISPHERA Associação de Saúde Ambiental / Paraná
UNICON – Unidos por Conceição do Mato Dentro
VIVAT INTERNACIONAL
350.org Brasil

#coesus #350brasil #riodoce #mariana #cimi #megamineria #naofrackingbrasil #arayara #atingidos #vale #samarco 

 

Fonte: Justiça Global Brasil

 

Organizations and civil society movements repudiate treaty signed between the mining companies Samarco/Vale/BHP and the public authorities

 

COESUS, Cooperlivre ARAYARA Foundation, 350.org, CIMI Nacional, FONASC and other hundreds of organizations repudiate the deal between Samarco – Vale – BHP and the federal and state government.

 

 

The National Committee in Defense of the Territory In Front of Mining and the International Joint for the Harmed by Vale repudiate the deal made between the mining companies Samarco, Vale and BHP and the federal and state authorities. The deal, if approved by the judge of the 12th Federal Court of the Judiciary Section of Minas Gerais, ends the public civil action that is being moved against the companies for the violation of the human, social and environmental due to the Fundão’s tailings dam break, in Mariana, on November 5, 2015.

This Wednesday, March 2, a ceremony held at the Presidential Palace publicly formalized the agreement between the mining companies and public authorities. Since last week, the Committee and the Joint has been monitoring the negotiation progress of this extrajudicial deal. The draft agreement was published 24th of this month by the Public Agency, in an article titled “Samarco, Vale and BHP will decide who and how they will compensate for the disaster”. Among the parties in the agreement, there are the Federal Government, the State of Minas Gerais and the State of Espírito Santo, besides several federal and state inspection institutions, of regulation and environmental monitoring, such as the Brazilian Institute of Environment and Natural Renewable Resources (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama), the National Department of Mineral Production (Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM) and the National Agency of Water Agência Nacional de Águas (ANA).

The deal impacts severely the population of the cities affected by the disaster, in Mariana and along all the Rio Doce basin. It creates a private Foundation that gives the mining companies the power to treat every violation of human, social, economic and cultural right. The Foundation, funded by Samarco, Vale and BHP, will set the value of the indemnity of each one of the harmed, in an isolated manner, and will be able to hire lawyers in case any of the indemnified doesn’t agree with the proposed indemnity. That means that the companies responsible for the disaster and the violation of human rights resulting from it propose and negotiate an indemnity value. If it isn’t accepted by the harmed and the indirectly impacted, these can make use of lawyers costed by the own Foundation to prosecute itself. This mechanism violates the warranties of the legit legal process.

This is only one of the wicked mechanisms that this deal intends to implement, an accord that didn’t take in consideration the harmed or the social movements in its elaboration. It was done totally behind closed doors, and its divulgation was made only by the Public Agency. This deal is an affront to the rights of all the people that suffer with the effects of this disaster in their lives. And the idea that everything can be ‘solved’ behind closed doors between the companies and the government is an affront to collectivity. The extinction of the public civil action by means of this kind of deal is convenient only to the companies, because once signed and accepted there is no way to undo it. And with the author parts implicated in the deal, there is no way to appeal.

The deal also violates the right of indigenous and traditional communities affected along the Rio Doce basin. These communities haven’t been equally communicated about the existence of this negotiation, which violates their right to free consultation, foresee, and informed, granted by the convention 169 of the International Labour Organization.

The programs executed by the Foundation would be supervised by an Inter-federative Committee, composed of representing of state and federal executive power. From the analysis of the draft published by the press, it’s possible to understand that this Committee plays two roles: one related to the support and definition of the Foundation’s actions in the elaboration and execution of programs. There is, however, the fear that the independence of action of regulation and supervision institutions, such as the Ibama, the DNPM, the ANA, as well as state institutions from Espírito Santo and Minas Gerais, be constrained by the terms of the deal.

The draft of the agreement announced on Wednesday estimate the amount of BLR$  20 billions in damages, but, according to information released by the press last friday, the current version of the deal implies the payment of only BLR$ 4,4 billions in the first three years, in installments. The remaining amount, of a yet uncertain value, would be disbursed along ten years.

According to information passed by the Press Office of the Attorney General’s Office to the Committee in Defense of the Territories Facing Mining, the draft released by the Public Agency would be outdated in relation to the most recent negotiations, but the lack of transparency and accountability of the federal and state government and of the public institutions implicated was such during the whole process, that the movements and organizations of the civil society haven’t even had access to the updated terms of this deal. That is, a negotiation that impacts the life of millions of people during all the Rio Doce basin has runned, until the end, completely armored and without any dialogue with the victims.

The entire world has witnessed the lives of millions of people being devastated by these companies. With the signature of this deal, the violation of the human, social, economic and environmental rights becomes now a great deal.

The human rights are not negotiable, our life and our nature are not for sell!

 

Translate: Wellerson Nunes

Original publication: Justiça Global Brasil

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