Em artigo publicado no Blog do Planeta da Revista Época, a diretora da 350.org Brasil, Nicole Figueiredo de Oliveira, trata do ‘fracking’, apelido em inglês para ‘fraturamento hidráulico, tecnologia usada para a extração não convencional do gás metano, que tem potencial 86 vezes maior que o dióxido de carbono (CO²) para o efeito estufa.

 

Uma tecnologia de nome estranho promete reacender no Brasil em outubro uma polêmica que já pegou fogo nos Estados Unidos e na Europa. Trata-se do fracking. Você pode não saber o que é, mas é contra.

“Fracking”, apelido em inglês para “fraturamento hidráulico”, é a tecnologia empregada para extração não convencional do gás natural do folhelho pirobetuminoso de xisto, uma rocha sedimentar existente em vários lugares do mundo. A presença de hidrocarbonetos nesse tipo de rocha é conhecida há várias décadas, mas até 1990 ninguém sabia como extraí-los. O “fracking” mudou esse panorama, e quer dar uma longa sobrevida ao reinado dos combustíveis fósseis.

Para que este gás seja extraído, é necessária a perfuração profunda do solo, onde se insere uma tubulação que atravessa o lençol freático até a rocha, por onde passam entre 7 milhões e 15 milhões de litros de água. A cada operação, água, areia e mais de 600 substâncias químicas, algumas bem tóxicas, são introduzidas em altíssima pressão para fraturar (“frack”) a rocha e assim liberar o gás. Nos EUA, o fracking tem criado disputas em torno do uso da água. No Brasil não deverá ser diferente.Mas os problemas relacionados ao fracking vão muito além da disputa hídrica. Nos países onde o faturamento hidráulico é realizado – China, Canadá, Estados Unidos e Argentina –, há relatos de contaminação de lençóis freáticos, vazamento de metano para poços artesianos e, em áreas dos EUA onde a tecnologia é usada para extrair petróleo, de poluição do ar. No Brasil, há um risco de contaminação inerente à própria geologia: as principais jazidas de gás numa camada de rochas na bacia do Paraná que está debaixo das rochas do aquífero Guarani, o maior do mundo.

Alguns estudos também têm apontado o vazamento sistemático do gás metano nos poços. Isso torna o gás natural produzido por “fracking” um agravador das mudanças climáticas, e não um combustível fóssil “limpo”, como seus proponentes insistem em vendê-lo.

São tantos os riscos que em Lancashire, no Reino Unido, a população pressionou e as autoridades proibiram testes exploratórios. Nos Estados Unidos, o estado de Nova York proibiu oficialmente o fracking, e Oklahoma, após aumento do registro de terremotos provocados pelo fraturamento dos poços – 35 em apenas oito dias do último mês de junho –, já se prepara para endurecer a legislação.

Apesar de não constar de seu Plano Decenal de Energia de 2013, o governo federal considera o fracking uma “alternativa energética” e está empenhado em desenvolver no país essa tecnologia sem debate público adequado.

Por isso, desde 2013 a Coesus – Coalizão Não Fracking Brasil – da qual a 350.org é membro e coordenadora nacional, realiza uma intensa campanha que culminou na suspensão, por via judicial, da 12ª Rodada do leilão de 240 blocos para a exploração de gás de xisto feito pela a Agência Nacional de Petróleo e Gás Natural (ANP) em dezembro de 2013.

Para este ano, a ANP já anunciou que vai leiloar em 7 de outubro mais 269 blocos. Para a 13ª Rodada, há blocos em cima dos aquíferos Serra Geral e Guarani, no Paraná e São Paulo.

Para qualquer pessoa de bom senso, a decisão do governo federal é equivocada, perigosa e compromete o futuro do país. O Brasil não precisa do fracking. Temos recursos naturais que nos garantem a geração de energia limpa e renovável, a vanguarda das economias de baixo carbono.

Saiba mais sobre as ações da campanha no site
www.naofrackingbrasil.com.br

 

Nicole Figueiredo de Oliveira é diretora da 350.org Brasil.

Fonte: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do-planeta/noticia/2015/09/voce-ainda-nao-sabe-mas-e-contra-o-fracking.html

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