Em artigo publicado no site do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, Silvia Calciolari trata da importância (e dificuldades) de falarmos sobre mudanças climáticas, especialmente quando relacionadas ao advento do fraturamento hidráulico, o chamado fracking.

Captura de tela de 2015-06-26 19:15:07

Estive em São Paulo recentemente participando de evento direcionado a jornalistas para falar de Mudanças Climáticas. Organizado pelo Instituto Arapyaú, o encontro teve como objetivo apresentar um estudo feito pela consultoria americana FrameWorks que apurou o que os brasileiros sabem e pensam sobre ‘mudanças climáticas’ e o que dizem os cientistas do clima.

Fui como representante da 350.org Brasil, movimento global que denuncia as mudanças climáticas e propõe o fim dos combustíveis fósseis (Fossil Free) , e Coesus – Coalizão Não Fracking Brasil – que luta para evitar a exploração comercial do gás de xisto por fracking no país. Seria uma ótima oportunidade para entender como podemos comunicar melhor as questões do clima e os novos tempos que se anunciam.

Encomendado pelo Instituto e dedicado a oferecer a nós jornalistas ferramentas para melhorar a informação que produzimos, os pesquisadores entrevistaram homens e mulheres de diversas faixas etárias e classes econômicas e sociais para descobrir que há muitas divergências entre a percepção dos cientistas e o senso comum.

Por exemplo, para muitos dos entrevistados, as ‘mudanças climáticas’ estão relacionadas com o aumento e variação da temperatura, o que não é tão distante assim da real definição. Porém, num efeito cascata, associa-se também à crise no abastecimento de água, mudança no regime de chuvas, poluição dos rios, desmatamento das florestas e à reciclagem do lixo, podendo ainda influenciar até a escolha da roupa para sair de casa.

São anos de bombardeamento pela mídia de expressões e informações variadas, condicionadas ao contexto de cada período e segmentadas a medida que os fenômenos climáticos acontecem: Aquecimento global, efeito estufa, buraco na camada de ozônio, acidificação e aumento do nível dos mares, derretimento das geleiras, calor no inverno e frio no verão, novo regime de chuvas, etc.

A pesquisa qualitativa apurou que sobrou pouco, e que a percepção é rasteira. Para o público em geral, mudanças climáticas remetem a consequências de curto prazo, em que basta reciclar o lixo, evitar o desperdício de água e passar protetor solar que está tudo bem. Sabemos que não é bem assim.

Tais percepções dos entrevistados estão bem além do que os especialistas definem como ‘mudança climática’ propriamente dita, a saber: O incremento, além do nível normal, da capacidade da atmosfera em reter calor, o chamado aquecimento global, devido a um progressivo aumento na concentração dos gases de efeito estufa (o dióxido de carbono (CO²), o metano e o óxido nitroso são os mais importantes na atmosfera) nos últimos 150 anos. Tal aumento, apesar dos níveis seguros em 350ppm já estamos em 400 desde Junho deste ano, tem sido provocado pelas atividades do homem que produzem emissões excessivas de poluentes para a atmosfera, em especial os combustíveis fósseis (hidrocarbonetos).

Esse aumento no efeito estufa poderá ter consequências sérias para a vida na Terra no futuro próximo. No caso do CO², o tempo de permanência deste gás na atmosfera é, no mínimo, de cem anos. Isto significa que as emissões de hoje têm efeitos de longa duração, podendo resultar em impactos no regime climático ao longo de vários séculos.

Enquanto o Instituto Arapyaú não divulga as conclusões desta primeira etapa da pesquisa encomendada à consultoria americana FrameWorks, valho-me do relato do jornalista Alexandre Mansur editor de Ciência e Tecnologia e responsável pelo Blog do Planeta da Revista Época, que esteve presente ao evento e há mais de uma década tem feito a cobertura das alterações do clima. No blog é possível conferir as estratégias para comunicar melhor as mudanças climáticas e evitar as armadilhas que só contribuem para confundir ainda mais a cabeça do leitor. Há muitos detalhes interessantes, que ficam para uma próxima vez.

Agora, quero seguir outro caminho, dar um exemplo prático e, na sequência, gostaria de propor um desafio. Depois de ouvir antropólogos, cientistas sociais e outros jornalistas que estiveram comigo nesse evento, fiquei a imaginar o quanto nós (Jornalistas) temos contribuído para a construção desse ‘senso comum’ e a percepção enviesada da população em relação às mudanças climáticas, suas causas e efeitos sobre a vida como conhecemos hoje. Aliás, desse e outros assuntos.

Como fui à trabalho, compartilhei minha angústia diante do meu fracasso em tentar emplacar pautas sobre mudanças climáticas, especificamente sobre fracking, seus perigos e impactos ambientais, econômicos e sociais, ele mesmo um intensificador das mudanças climáticas que hoje vivenciamos. São temas difíceis, complexos e quase ‘inatingíveis’.

E não foi surpresa para mim saber que alguns jornalistas que ali estavam não sabiam o que era fraking,ou tinham uma vaga ideia.

Naquele momento, perdi a oportunidade de explicar detalhadamente por achar desnecessário. Não cometerei esse erro novamente.

Para quem ainda não sabe, fraturamento hidráulico, conhecido como fracking, é a tecnologia para extração do gás do folhelho pirobetuminoso de xisto (shale gas) em camadas profundas do subsolo, que podem chegar à até três mil metros atravessando os aquíferos e lençóis freáticos. Através de uma tubulação é injetada até 15 milhões de litros de água em alta pressão, mais areia e um coquetel de aproximadamente 600 produtos químicos altamente tóxicos e cancerígenos, utilizados para o fraturar a rocha e liberar o gás.

Com o fracking, grande parte da água com produtos químicos e o metano liberado contaminam as reservas subterrâneas, retornando para a superfície e poluindo a atmosfera.

Para piorar o que já terrível, o vazamento do metano ocorre durante muitos anos depois da abertura e exploração do poço, que tem uma vida media produtiva de ‘apenas’ três anos. E alguns estudos comparam e comprovam que as emissões do fracking são maiores do que as do carvão.

E tem mais: Vazamentos de operações de gás de xisto não só emitem gás metano, mas os do efeito estufa também, como os compostos orgânicos voláteis (COV) que contribuem para a poluição atmosférica ou ozono troposférico, e tóxicos, tais como o benzeno.

E mais: Já sabemos que o metano tem um “poder estufa” 20 vezes superior ao do CO². Por isso, podemos afirmar que a exploração por fracking de gás de xisto em escala comercial intensifica as mudanças climáticas, provocando seca, enchentes, tufões, derretimento das geleiras e alterações radicais do clima, entre outros efeitos do aquecimento global.

Agora que estamos nos aproximando da COP21 e aproveitando que a “ressaca pós-Copenhagen” passou e a pauta voltou aos jornais e revistas, a mim me parece que temos uma ótima oportunidade para falar de mudanças climáticas, esse fenômeno etéreo e disperso no imaginário coletivo, utilizando o fracking como fenômeno prestes a acontecer no Brasil.

No próximo dia 07 de Outubro, a Agência Nacional de Petróleo de Gás Natural (ANP) realiza a 13ª Rodada para leiloar 266 novos poços para exploração por fracking de gás não convencional. Para esta 13ª Rodada, há blocos em cima dos Aquíferos Serra Geral e Guarani no Paraná e São Paulo, próximos ao arquipélago de Abrolhos, na Bahia, e na parte sul da floresta amazônica, já no Acre, representando uma ameaça real ao futuro do Brasil. No Paraná, mais de 20 cidades serão afetadas pelo novo leilão. Isso mesmo, podemos ter fracking aqui, e em mais 370 cidades em 15 estados brasileiros.

Por que não falamos de fracking? Por que não conseguimos vender essa pauta nem para os nossos editores?

Todos precisam saber o que é o fraturamento hidráulico, inclusive os jornalistas – de todas as editorias. Sabe por quê? Temos que dizer NÃO para essa maluquice. Até quem não sabe o que é frackingé contra. É preciso comunicar a contaminação da água, poluição do ar, esterilização do solo, dos impactos na agricultura, pecuária e turismo, de como provoca doenças como câncer, problemas respiratórios, cardíacos e neurológicos, elimina a biodiversidade, fragmenta o ecossistema de floresta e, nos EUA, já relacionado a ocorrência de terremotos.

Temos um fenômeno (Mudanças Climáticas), uma causa (Fracking) e um factual (Leilão da ANP). E mais: Fracking não é só uma pauta ambiental. É Econômica, porque vai afetar a produção de alimentos, turismo, geração de emprego e renda. É Social, porque onde acontece o fracking atinge as populações mais vulneráveis. É Política também, pois já tramita no Congresso Nacional um Projeto de Lei que propõe uma moratória de cinco anos para operações de fracking em nosso país.

É responsabilidade dos jornalistas, e não só dos patrões, informar a população e promover o debate. Não podemos perder a oportunidade de comunicar e deixar que a opinião pública se faça.

Por fim, meu derradeiro argumento: Perto da devastação do fracking, a Operação Lava-Jato é pinto!

Silvia Calciolari é jornalista, ex- diretora do Sindijor-PR, autora de dois livros que resgata a memória da ditadura militar no Paraná e atualmente é contratada da 350.org Brasil para atuar como Assessora de Imprensa da Coesus – Coalizão Nao Fracking Brasil (www.naofrackingbrasil.com.br) .

Fonte:

http://sindijorpr.org.br/artigos-interna/5/artigos/6159/precisamos-falar-de-mudancas-climaticas-e-tambem-de-fracking

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