Indígenas plantam mudas para autodemarcação de território

Reflorestamento com espécies nativas marca processo de reocupação da Terra Indígena Rio dos Índios, do povo Kaingang, no Rio Grande do Sul

 

Nesta quinta-feira (10), 350 mudas de Araucária, árvore nativa da região sul do Brasil, também conhecida como ‘pinheiro do Paraná’, foram plantadas na Terra Indígena Rio dos Índios, do povo Kaingang. Localizada no município de Vicente Dutra, no Rio Grande do Sul, a terra indígena já recebeu Portaria Declaratória por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai) desde 2004, mas até agora o processo de demarcação não avançou. O reflorestamento faz parte de uma série de manifestações realizadas pelos indígenas, que cobram a retirada dos não indígenas que ocupam a TI, território tradicional dos Kaingang, e a imediata regularização da mesma.

“Hoje estamos aqui na TI Rio dos Índios para fazer a autodemarcação e o reconhecimento do território indígena. A Araucária é um símbolo sagrado para nós Kaingang. Nossos rituais são realizados através dela. Nós plantamos as mudas aqui em um local onde já foi lavoura, já foi área habitada, e agora vai ser área de Araucárias, que darão pinhões e vão alimentar os animais que vivem por aqui e toda a comunidade”, afirmou Kretã Kaingang, liderança do Paraná, coordenador do Programa Indígena da 350.org e membro da coordenação-executiva da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

No fim do dia os indígenas também colocaram uma placa de demarcação da TI, semelhante à utilizada oficialmente pela Funai quando o processo está concluído, e declara a área como terra protegida. “Nós povos indígenas tomamos a decisão de fazer a autodemarcação da nossa maneira, já que o estado brasileiro tem sido omisso em resolver a situação latifundiária os nossos territórios. Esse é um momento muito importante, que compartilho aqui a convite do meu companheiro de luta, cacique da aldeia, Luís Salvador. Essa área que sempre foi uma terra indígena, agora mais do que nunca reconhecida por parte do estado com a placa do governo federal. Isso garante que as famílias tenham prosperidade, o que me deixa até emocionado”, afirmou Kretã.

Para o cacique Luís Salvador, esse reconhecimento do território é fundamental para a manutenção do modo de vida tradicional e para o cotidiano dos povos indígenas. “Muitos se foram e não puderam ver essa placa, mas somos filhos dessa terra e a continuidade dessa luta é direito dos povos indígenas. Hoje foi um dia importante para a nossa comunidade. Colocando essa marca histórica, da nossa maneira. Hoje foi plantado o começo da reconstrução daquilo que foi destruído pelo agronegócio, que derrubou as nossas matas. Se hoje se nossos rios estão sendo poluídos não é por causa dos povos indígenas, se o nosso planeta está do jeito que está, quase explodindo, não é por causa dos povos indígenas. Temos que respeitar a natureza porque é a vida humana que precisa sobreviver dela.”

Outras lideranças de várias aldeias e terras vizinhas também estiveram presentes no ato. “Estamos aqui juntos visando a revitalização daquilo que é da nossa cultura, daquilo que é dos nossos filhos. Tudo que a gente faz é pensando no futuro, para que as futuras gerações possam ser contempladas com essa empreitada que estamos realizando hoje. Para que futuramente nossas crianças também possam desfrutar dessa plantação de Araucárias”, afirmou Waldemar Vicente, liderança indígena do município de Iraí.

Kretã Kaingang também agradeceu o apoio da 350.org, COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida) e Fundação Arayara para o deslocamento dos indígenas do Paraná até a TI, para realizar a ação.

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