Água não se vende, se defende!

Fórum Alternativo Mundial reúne organizações de diversos países para debater soluções reais para a crise hídrica

O Fórum Alternativo Mundial da Água teve início no último final de semana e reuniu milhares de pessoas em torno da questão da água. Enquanto autoridades governamentais e representantes de grandes corporações multinacionais privadas se reuniam dentro de salas fechadas para a sociedade no Fórum “oficial”, organizações civis e movimentos sociais de diversos países, juntos no evento alternativo, debateram soluções reais, lideradas pelas próprias comunidades, para combater a escassez hídrica e as mudanças climáticas.

Uma das plenárias de abertura teve como tema os impactos da exploração de combustíveis fósseis e mega-mineração para rios e diversas populações tradicionais. Sob gritos de “nem um poço a mais”, e “água é vida”, defensores dos direitos humanos e do meio ambiente cobravam dos governos soluções para os impasses entre as comunidades e as empresas donas dos empreendimentos. Uma representante do movimento social do Xingu lembrou que “os rios não podem falar, mas todos nós aqui somos a sua voz”.

Silvia Lafayete, pescadora da região da Bacia do Rio Doce, no estado do Espírito Santo, relatou que o petróleo passa dentro de seus territórios. “Nossa água já está contaminada pela Petrobrás. É muito vergonhoso estar aqui hoje pedindo socorro. Eu quero água, pelos idosos, pelas crianças, pelo futuro. Eu tomo banho hoje de água fervida, de canequinha. Somos atingidos pela lama da Samarco também. Muita gente já morreu por essa contaminação. Nós estamos morrendo naquele lugar”, afirmou.

Marcelo Anacé, indígena da região do Lagamar do Cauípe, no Ceará, denunciou a ação criminosa por parte de empresas fósseis, com aval do governo estadual, de retirar água que deveria ser do povo para o Complexo Industrial do Pecém, cujas termelétricas movidas a carvão são as duas maiores do país.

“Enquanto isso, nós não temos mais direito a água pra beber, à pesca. Sofremos ameaça junto com as lideranças, nossos velhos chegaram a falecer, pois não aguentaram ver tamanho crime contra a nossa comunidade. Quando o Lagamar do Cauípe seca, nossas cacimbas também secam. É um desrespeito, estou aqui para pedir ao governador que olhe para os pobres que precisam de ajuda. Não venha tirar nossa única riqueza para abastecer as empresas poluidoras!”

A 350.org e a COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida) realizaram duas oficinas. A primeira, no dia 17, debateu o impacto dos combustíveis fósseis aos aquíferos e ao clima em geral. Pessoas de diversos estados, como RS, BA, SP, DF e SC estiveram presentes, lembrando as enchentes, alagamentos, chuvas desreguladas, impactos à biodiversidade, economia e produção de alimentos, que vivenciam em suas regiões.

Participantes das oficinas tiram foto em frente ao balão da 350.org Brasil e COESUS.

Nicoel Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org e coordenadora nacional da COESUS, frisou a importância da participação da sociedade civil em espaços como os leilões de venda de blocos para exploração convencional e não convencional de petróleo e gás, organizados pela Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) sem nenhum transparência ou consulta. “No próximo dia 29 teremos mais um leilão, onde não somos bem-vindos. Novos blocos serão ofertados, principalmente no Maranhão, Piauí e Mato Grosso. Neste último, 90% do abastecimento de água é feito pelo Aquífero Guarani, que pode ser gravemente impactado pela exploração por fracking.”

Ela defendeu um modelo descentralizado e independente de geração de energias livres e renováveis, com tecnologia mais barata e produzida nacionalmente, “lembrando que as energias alternativas também causam impacto, então, se não mudarmos o modelo de negócios altamente destrutivo e exclusivista que é o padrão hoje, não mudamos o centro do problema.”

No dia 18 foi realizada a oficina sobre fracking, a técnica não convencional de exploração de petróleo e gás de xisto por fraturamento hidráulico, e que contou com a presença de geógrafos, geólogos e outros representantes da academia. Ricardo Moretti, professor da Universidade Federal do ABC, compartilhou sua forte preocupação com o uso da técnica. “Se alguém me perguntar qual o meu maior medo para o futuro da humanidade, eu diria sem dúvida nenhuma que a maior ameaça ambiental para mim hoje é o fracking. Em termos ambientais, não há nada que me assuste mais”, alertou.

Suelita Rocker, coordenadora de engajamento e comunidades da COESUS e 350.org Brasil, levantou a questão que a necessidade de perfuração para o fracking é muito grande e por isso seus impactos vão muito além. “Milhares de poços têm que ser explorados para se ter uma quantidade viável de gás, e cada um deles contém milhares de químicos. O raio de contaminação é de 80km, enquanto que a vida útil e a rentabilidade de um poço de fracking é de 1 ano e 8 meses a no máximo 3 anos. Além da contaminação, a demanda por água é muito grande, o que também constata o declínio das águas de lençóis freáticos.”

Os participantes foram lembrados também que a água de flowback ou “retorno” das operações de fracking muitas vezes são usadas para irrigar as produções. Na Argentina, por exemplo, uma região altamente produtora de maçãs e pêras foi contaminada, tendo que deixar de exportar para diversos países por terem seus produtos taxados de contaminação.

Claudia Campero, integrante da Aliança Mexicana contra o Fracking e também na Aliança Latinoamericana contra o Fracking, da qual a 350.org também é membro, falou sobre os impactos da tecnologia, independente de ela ser privada ou estatal. “Privatizada ou nacionalizada, o mal para as pessoas é o mesmo. Há um argumento de que precisa nacionalizar para ter controle social mais forte, mas existem empresas nacionais que têm feito isso e o impacto é o mesmo. O problema é a tecnologia. Não há possibilidade de seguir abrindo territórios para exploração por fracking.

Outras ameaças colocadas foram a perda de soberania por parte das comunidades tradicionais afetadas e o deslocamento dessas populações. “Não há fracking seguro. É uma técnica inerentemente insegura e por isso devemos proibí-la. Temos que achar soluções rápidas e urgentes, como as proibições locais que temos conseguido no âmbito da campanha Não Fracking Brasil”, frisou Nicole Figueiredo.

Todas as fotos do fim de semana no FAMA você encontra na página da 350.org Brasil no Facebook!

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