Campeão mundial de Kitesurf lamenta obras no Lagamar do Cauípe

Movimento popular, que luta contra as obras para retirada de água da APA, faz protesto em competição

Em meio as provas da última etapa da Liga Mundial de Kitesurf, na praia do Cumbuco, no Ceará, dezenas de vozes se ergueram entre atletas e torcedores. Movimentos comunitários e indígenas mostraram sua luta em defesa da água e da Área de preservação ambiental do Lagamar do Cauípe. Eles entregaram panfletos e conversaram com o público sobre o conflito que está havendo na região.

“O povo não tinha consciência do que estava acontecendo, aproveitamos para alertá-los sobre o tema. Foi um momento muito proveitoso em que o público ligado ao esporte também manifestou interesse em estar com a gente nessa luta”, afirma um dos líderes do movimento, Paulo França.

O campeão mundial de Kitesurfe, Carlos Mário, ao subir ao pódio se emocionou ao falar sobre a situação no Cauípe. “Estou  triste pelo estado ter liberado uma obra que vai tirar água do Cauípe para servir a uma termoelétrica. Se a lagoa secar, não terei lugar para treinar, nem para o projeto que queremos desenvolver aqui para as crianças. Muita gente vai ser prejudicada”, diz o atleta.

O estado do Ceará passa por uma de suas piores crises hídricas e, enquanto diversas comunidades vivem sob racionamento, milhões de litros de água estão sendo retirados diariamente de reservas da região para abastecer a termoelétrica do Complexo Industrial do Pecém.

“Conforme a lei nacional de recursos hídricos, o uso da água deve ser prioritário para consumo humano e a dessedentação de animais. O que vemos é o escalabro onde a indústria da energia fóssil se sobrepõe à vida”, afirma Juliano Bueno de Araujo, coordenador de campanhas da 350.org Brasil e América Latina e da COESUS- Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

Resistência

As obras para retirada de água do Lagamar do Cauípe estão paralisadas desde a última sexta-feira, quando líderes do movimento reuniram-se com representantes do governo, para tentar uma negociação. Diversas famílias da comunidade de Caucaia ocupam parte dos canteiros de obra do Lagamar.

Os projetos que visam o abastecimento do Complexo Industrial, prevêem também a perfuração de poços em dunas na região. Além de tirar água de mais de 20 comunidades e do risco à biodiversidade – o líder indígena, Roberto Ytaysabe Anacé, denuncia que os povos indígenas tradicionais não foram consultados sobre as obras. 

“O mais importante para nós é o acesso à água doce, para consumo das populações e para pesca.  Para o povo Anacé, a Barra do Cauípe, também tem importância histórica e mística, por isso, as agressões vão muito além da questão da água. É o risco de extermínio da nossa cultura. Vamos continuar resistindo”, afirma o líder indígena Anacé.

O movimento protocolou uma ação popular na semana passada para barrar as obras, no mesmo dia em que um trabalhador  morreu em acidente de trabalho no local. A Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPE/CE) e a Defensoria Pública da União (DPU), também ajuizaram ação civil pública com pedido de liminar de suspensão das obras de extração de água do aquífero Dunas/Cumbuco e do Lagamar do Cauípe.

A Defensoria aponta a existência de inconsistências no procedimento que culminou com a liberação de alvará para execução das referidas obras em uma APA – sem estudos de impacto ambiental, avaliação social das comunidades tradicionais que estão no trajeto e a consulta prévia aos povos indígenas.

Compartilhe!
Facebooktwittergoogle_pluspinterestmail

Siga-nos!
Facebooktwittergoogle_pluspinterestrssyoutubevimeoinstagrammail

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *