Emissões do Brasil crescem 9% em 2016

Atual política energética do governo, que prioriza investimentos em combustíveis fósseis, pode piorar ainda mais esse cenário

Seminário realizado em São Paulo lançou os novos dados do SEEG (Foto: Divulgação Observatório do Clima).

*Com informações do OC

Na última quinta-feira (26), o Observatório do Clima, rede que agrega 43 entidades da sociedade civil brasileira, incluindo a 350.org Brasil, lançou os dados da última edição do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), relativos ao ano de 2016. Segundo o cálculo, as emissões nacionais de gases-estufa subiram 8,9% em comparação com o ano anterior. Este é o nível mais alto desde 2008 e a maior elevação vista desde 2004.

Foram emitidos pelo país no ano passado 2,278 bilhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e), contra 2,091 bilhões em 2015. Trata-se de 3,4% do total mundial, o que mantém o Brasil como sétimo maior poluidor do planeta.

O aumento das emissões ocorre em meio à pior recessão da história do Brasil. Em 2015 e 2016, a elevação acumulada das emissões foi de 12,3%, contra uma queda de 7,4 pontos no PIB (Produto Interno Bruto), que recuou 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. O Brasil se torna, assim, a única grande economia do mundo a aumentar a poluição sem gerar riqueza para sua sociedade.

Segundo os dados, a elevação nas emissões no ano passado se deveu principalmente à alta de 27% no desmatamento da Amazônia. As emissões por mudança de uso da terra cresceram 23% no ano passado, respondendo por 51% de todas as emissões de gases do Brasil. Por outro lado, quase todos os outros setores da economia tiveram queda nas emissões. A mais expressiva foi no setor de energia, que viu um recuo de 7,3% – a maior baixa em um ano desde o início da série histórica, em 1970.

Mas a julgar pelas atuais políticas energéticas do governo federal, esse cenário pode sofrer uma alteração significativa muito em breve. A priorização dos investimentos em combustíveis fósseis, com direcionamento de 70% dos recursos para carvão, petróleo e gás na próxima década (vide o Plano Decenal de Expansão de Energia 2026), e a retomada da agenda de grandes leilões de blocos para exploração de petróleo e gás – a 14a Rodada e a 1a e 2a Rodadas do Pré-sal, realizadas respectivamente em 27 de setembro e 27 de outubro – pode aumentar exponencialmente as emissões de gás carbônico do país, elevando ainda mais sua posição no ranking dos maiores poluidores do mundo.

“Para conter as mudanças climáticas em níveis que não causem a catástrofe humanitária projetada pelos cientistas, é preciso deixar todas as reservas fósseis no chão. Isso significa nenhum projeto fóssil novo, e investimento crescente em renováveis para todos, para que aos poucos, os projetos existentes possam ser desativados e substituídos. No entanto, o Governo federal insiste em continuar fazendo leilões fósseis”, afirmou Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina.

O setor de processos industriais, por sua vez, teve redução de 5,9%, e o de resíduos, 0,7%. Já as emissões da agropecuária subiram 1,7%. Hoje, a atividade agropecuária é, de longe, a principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa no país: ela respondeu por 74% das emissões nacionais em 2016, somando as emissões diretas da agropecuária (22%) e as emissões por mudança de uso da terra (51%).

Todo o agronegócio brasileiro possui emissões brutas de 1,6 bilhão de toneladas, mais do que o Japão, com 1,3 bilhão. Entre 1990 e 2016, o setor de uso da terra no Brasil emitiu mais de 50 bilhões de toneladas de CO2e, o equivalente a um ano de emissões mundiais.

Com efeito, a chamada intensidade de carbono da economia brasileira, ou seja, o total emitido por unidade de PIB gerada, cresceu 13% – na contramão da maior parte das grandes economias, em que a intensidade de carbono vem declinando. Em 2016, o Brasil emitiu 1,1 tCO2e para cada milhão de dólares de PIB (MUSD), enquanto a média global é de 0,7 tCO2e/MUSD. Para uma economia de baixo carbono, estima-se que este valor deveria ser inferior a 0,1.

No setor de energia, que antes da crise vinha crescendo rapidamente em emissões, a queda de 7,3% foi puxada pela retração da economia e pelo crescimento da participação das energias renováveis na matriz elétrica.

As emissões associadas à geração de eletricidade caíram 30% no ano passado. Isso se deveu à redução da participação das usinas termelétricas fósseis, cuja geração caiu 28% devido à recuperação parcial dos reservatórios das hidrelétricas – que aumentaram sua geração em 6% graças às chuvas no Centro-Sul em 2016 – e à desaceleração da economia. Além disso, a geração por fontes renováveis não hídricas, principalmente eólica e biomassa, cresceu 19%.

A maior parte das emissões do setor de energia – 48% – segue atrelada ao setor de transportes. Nos últimos três anos o consumo de combustível em veículos leves se manteve constante, mas em 2016 a gasolina aumentou 4% e o etanol caiu 10%.

“Caso o Brasil ainda queira cumprir as metas estabelecidas no Acordo de Paris, de reduzir em 30% as emissões até 2020, o governo precisa rever urgentemente suas políticas para o setor de energia. Além de parar o desmatamento, precisamos deixar os combustíveis fósseis no chão e redirecionar os investimentos para fontes de energia renováveis, livres e acessíveis. A guinada para uma economia de baixo carbono passa inevitavelmente pela adoção dessas medidas”, completou Nicole Oliveira.

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