Argentina: Fracking ameaça a água e o vinho de Mendoza

 

 

Sem consultar a população, governo autoriza a perfuração de um poço ao Sudoeste da província, colocando toda a sociedade em alerta para os riscos de contaminação

 

 

A confirmação de que no departamento de Malargüe, na província de Mendoza, na Argentina, está sendo realizado um ‘projeto piloto’ para exploração não convencional de petróleo por fraturamento hidráulico, ou fracking, em inglês, caiu como uma bomba para todos os demais departamentos.

 

Segundo informações da imprensa regional, a autorização para o início do trabalho em Malargüe foi dada pelo governador da província, Alfredo Cornejo, a atinge em cheio a bacia do rio Salado. A decisão foi mantida em segredo até o momento dos testes, iniciados agora em agosto, uma atitude que abala a confiança dos cidadãos da província no governo, que em grande proporção se opõem a tal medida.

 

 

No caminho do vinho, Mendoza é o maior destaque, e seus rótulos possuem tanto reconhecimento quanto os vinhos franceses e italianos. Ao todo, são mais de 1.200 vinícolas, produzindo milhões de Hectolitros por ano, geralmente armazenados em barrica de roble francés (barris de carvalho francês) pelas bodegas. Fonte do texto e imagem: Instinto Viajante

 

Localizada na patagônia argentina e ladeada pela Cordilheira dos Andes, Mendoza possui umas das regiões produtoras de vinho mais extraordinárias do mundo, bem no coração de um quente e árido deserto. Com um sistema de irrigação herdado dos povos tradicionais, os Andes são a fonte mais importante de água através do degelo, que é controlado por canais chamados de ‘acéquias’. Desta forma, os ‘oásis’ garantem os vinhedos e a produção de vinho, principal atividade econômica da província, além da sobrevivência de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes.

 

E por que, agora, o fato do governo ter autorizado a perfuração de um poço por fracking assusta os mendocinos? Eles conhecem muito bem os impactos ambientais, econômicos e sociais que essa tecnologia provoca, bem como seu legado de contaminação, destruição e morte.

Encravada na patagônia argentina, Vaca Muerta é hoje um deserto radioativo que contamina à água, o solo e as pessoas e comprova a devastação do gás não convencional.

As províncias vizinhas de Neuquén e Río Negro, assim como o sul de Mendoza, estão localizadas na região conhecida como Vaca Muerta, um extenso campo de petróleo e gás não convencional. Chamada de ‘zona de sacrifício’, Vaca Muerta gera energia a partir do xisto para todo o país a custas do aniquilamento da tradicional produção de peras e maçãs, da contaminação das reservas de água de superfície e subterrâneas, além de impactos nocivos à saúde das pessoas e animais. Isto sem contar o verdadeiro genocídio do povo indígena Mapuche, que teve suas terras expropriadas por conta do fracking, e sofre com doenças crônicas decorrentes da contaminação por produtos tóxicos, muitos deles cancerígenos e até radioativos.

 

 

Desde que o fracking começou na província vizinha há mais de dez anos, há o temor de se perder o trabalho de produção de uvas no deserto, que começou com as primeiras mudas trazidas pelos espanhóis há cinco séculos. Hoje, os produtores de peras e maçãs de Allen, em Río Negro, não conseguem mais exportar sua produção, que é rejeitada pelo mercado internacional e até interno em função da contaminação causada pelos químicos usados no processo de extração do petróleo e gás não convencional.

 

Produção de maças argentinas é rejeitada pelo mercado internacional por causa do fracking e sofre com a concorrência. E é exatamente isso que os mendozinos querem evitar. ao lutar contra o gás não convencional.

Em junho de 2013, o Departamento de General Alvear, que faz divisa com Neuquén, aprovou por unanimidade a Portaria 3934/13, que proíbe o fracking exatamente para proteger o meio ambiente, as reservas de água e a economia local.

Importante salientar ainda que a água tem uma importância vital para os habitantes de Mendoza. Para garantir a sobrevivência no deserto, após grande mobilização popular foi aprovada a Lei 7722 em 11 de Junho de 2007, que baniu a mineração a céu aberto com o objetivo de proteger a água da contaminação. Desde então, produtos químicos, tais como cianeto, mercúrio, ácido sulfúrico, e outras substâncias tóxicas semelhantes usadas na mineração estão proibidos para proteger as fontes de recursos hídricos. As companhias recorreram, mas a Justiça confirmou em 2015 a constitucionalidade da proibição.

 

Para marcar os dez anos da aprovação da Lei 7722, foi realizado em General Alvear o 1º Congresso Regional sobre os impactos e proteção do meio ambiente (CRIPA17).  que representei a 350.org Argentina e COESUS – Coalizão América Latina contra o fracking, pela Água, Vida e Agricultura Sustentável. Como representante das duas entidades, pude relatar a luta contra o fracking e os combustíveis fósseis no Brasil e América Latina. O contato direto com as lideranças dos movimentos contra o fracking, mineração e energia nuclear da província mostrou que a união das pessoas é o combustível para a resistência. Neste contexto, a COESUS, através da 350.org Argentina e 350.org Uruguai, intensificam a mobilização das lideranças, parlamentares e os povos latino-americanos para participar deste movimento em defesa da água, da vida e do clima.

 

Presença da COESUS e 350.Argentina no 1º Congresso Regional sobre impactos e proteção do meio ambiente (CRIPA17).

 

E para fazer um enfrentamento direto à decisão do governo de Mendoza, o Departamento de General Alvear, através da Multisectorial, já lançou um comunicado rechaçando a autorização em Malargüe e solicitando a imediata suspensão da perfuração ao Ministério de Energia e Mineração.

 

Ao que parece, uma nova luta se anuncia no horizonte com mais força, experiência e determinação. Tudo para conter o avanço dos combustíveis fósseis na Argentina e em todo o planeta.

 

Leia a versão em espanhol:

COMUNICADO

La Multisectorial de General Alvear quiere hacer público su RECHAZO a la aprobación inconsulta de proyectos piloto de fracking, extracción de petróleo de manera no convencional, en el Departamento de Malargüe, sobre la cuenca del Río Salado, con fecha agosto de 2017.

Nuestra postura al respecto se manifestó claramente en El Congreso CRIPA 17, organizado por nuestra entidad desde al 16 al 20 de junio del presente año, donde especialistas de diferentes partes del mundo expusieron los riesgos de esta actividad con fundamento técnico.

Es por esto que estamos elevando a la brevedad pedidos de reunión a la DPA (Dirección de Protección Ambiental) y al Ministerio de Energía y Minería para manifestar nuestra postura y exigir explicaciones respecto a la decisión tomada de manera apresurada y pareciera “a escondidas”, aduciendo una simple “adecuación de infraestructura” para el inicio de la fractura hidráulica en pozos en actual explotación tradicional. Esto evitó la presentación de nuevas evaluaciones de impacto ambiental y la realización de la audiencia pública correspondiente.

Asimismo informamos que hemos mantenido una primera reunión con representantes del Departamento General de Irrigación por el mismo motivo. En la misma se informó que no se aprobará el uso de agua dulce para futuros proyectos de fracking a escala industrial y que ya se está haciendo el control y monitoreo del agua en la zona, enviando las muestras hídricas a la Universidad Nacional de Cuyo.

Desde la Multisectorial solicitamos la suspensión de los proyectos iniciados hasta tanto no se cumplan los pasos exigidos por Ley. El pueblo tiene derecho a expresar de qué manera elige vivir.

General Alvear es “DEPARTAMENTO LIBRE DE FRACKING” por ordenanza municipal. Pero la cuenca hídrica es más amplia y no conoce de límites políticos. Debemos protegerla para nosotros y las futuras generaciones.

 

Assista o vídeo que comprova o ‘projeto piloto’ para fracking em Mendoza.

 

 

Depoimento de Carlos Pía, diretor da Multisetorial, sobre a proibição de fracking em General Alvear


Por Silvia Calciolari

Fotos: 350Argentina/COESUS

 

 

 

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