Uma batalha pela vida na Patagônia argentina

 

 

Em artigo, Débora Gastal relata a experiência de estar no epicentro do fracking na Argentina

 

 

Campo de exploração de fracking com lago ao fundo. No norte da Patagônia, a natureza luta por espaço com a indústria dos combustíveis fósseis. Foto: Débora Gastal/350.org

Na região de Neuquén, na Argentina, a estonteante paisagem do norte da Patagônia é interrompida de maneira repentina e recorrente pela indústria dos combustíveis fósseis. A planície sem fim é recortada por estradas e incontáveis torres de fracking, escondendo em seu o subsolo uma das maiores reservas de petróleo e gás da América Latina: Vaca Muerta.

Cerca de 925 milhões de barris equivalentes de petróleo (BEP) estão armazenados a uma profundidade de três mil metros em uma área de 30 mil quilômetros quadrados entre as províncias de Neuquén, Río Negro, La Pampa e Mendoza.

Foto aérea de Vaca Muerta, mostrando estradas e poços de fracking que retalham a região. Foto: Marcel Ricardo Ribeiro/COESUS Latinoamérica

No começo de dezembro de 2016, a equipe da 350.org América Latina visitou a região de Neuquén e se manifestou em solidariedade aos grupos que lutam contra o fracking — e, essencialmente, pela vida . As dores pelos estragos que a indústria dos combustíveis fósseis está causando às terras, animais e cultura de quem vive por lá podem ser sentidas fisicamente: você chora não apenas porque a batalha é difícil e a realidade é injusta. Você chora porque seus olhos ardem devido à baixa qualidade do ar em algumas áreas e porque a sua boca fica seca e você não pode nem confiar na água.

A estimativa é que existam cerca de 1100 poços de fracking sendo explorados atualmente na Argentina. Muitos deles, bem no meio de áreas produtivas. É do norte da Patagônia que vem mais de 90% da produção de peras e maçãs da do país.

Alguns metros separam um campo de exploração de fracking de uma plantação de maçãs em Allen. Fotos: Débora Gastal/350.org

Sebastián Hernández é o presidente da Associação dos Fruticultores de Allen, uma cidade na província de Río Negro, a cerca de 30 km de Neuquén. Ele conta que, além de contaminar a água, as perfurações também têm outros efeitos colaterais, como o barulho que incomoda pessoas e animais e as fortes luzes, que durante a noite atraem insetos que estragam as frutas. A produção de maçãs e peras é uma prática centenária no norte da Patagônia, e agora as pessoas estão vendo gigantescas multinacionais se apropriarem de seu meio de subsistência.

Mas o fracking não está destruindo apenas a economia local. Também está arruinando toda uma cultura. Comunidades Mapuche centenárias estão sofrendo com as suas terras ancestrais sendo invadidas por caminhões, canos e máquinas para perfuração. Tradicionalmente dependentes da criação de cavalos, vacas e ovelhas, eles veem seus animais morrerem depois de beberem a água dos rios e enfrentam dificuldades por não terem os recursos para comprar água mineral diariamente para o próprio consumo.

Quando visitamos a localidade de Rincón de los Sauces, a 240 km de Neuquén, a comunidade Mapuche de Newen Kura estava sendo despejada. José Avila Villawal, membro da comunidade, explica que não é só uma questão de perder suas terras, mas de pertencimento e de luta pelo mais básico dos direitos: a vida.

Quando o fracking chega, a degradação ambiental, social e econômica vem junto com ele. É por isso que pessoas de todos os lugares do mundo estão lutando para frear essa indústria.

Um exemplo de destruição é a pequena cidade de Añelo, a 105 km de Neuquén. Desde que a Chevron chegou à região, em 2013, a sua população dobrou. Mas um número maior de pessoas não significa mais desenvolvimento. Na verdade, é exatamente o contrário: a cidade agora enfrenta um aumento no número de acidentes e na incidência de doenças devido ao intenso tráfego de caminhões e da terrível qualidade da água e do ar trazidas pela indústria do fracking. E não há um hospital sequer na cidade, apenas um posto de saúde.

Nas ruas de chão batido de Añelo, é mais fácil encontrar buracos do que pessoas. Foto: Marcel Ricardo Ribeiro/COESUS Latinoamerica

José Chandia foi o primeiro vereador na América Latina a propor uma lei para banir o fracking em nível local. Desde 2012, o uso dessa técnica está proibido na cidade de Cinco Saltos, a 20 km de Neuquén. Ele explica que a aprovação de uma lei não é a solução completa. A conscientização e a mobilização são essenciais para vencer essa luta.

 

O exemplo de Chandia está sendo replicado em muitos lugares, na Argentina e no exterior. No Brasil, por exemplo, mais de 200 cidades já baniram o fracking de seus territórios, com a esperança de ele nunca comece a ser utilizado no país — apesar da displicência do governo federal.

Além dos impactos locais, o fracking colabora intensamente para o aquecimento global, liberando grandes quantidades de gases de efeito estufa, como CO2 e metano. Precisamos pará-lo!

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Fonte: Mediun.com

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3 Comments

    • O fracking – fraturamento hidráulico – é uma técnica destrutiva de extração do gás metano aprisionado em microbolhas no subsolo, num tipo de rocha chamada folhelho pirobetuminoso. Para sua extração, milhões de litros de água, misturados com areia e mais de 720 produtos químicos contaminantes, pelo menos uma dúzia deles radioativos, são injetados no subsolo sob alta pressão, fraturando a rocha.
      A vida média de cada poço é de um ano e meio a três, restando após, na área, tão somente deserto radioativo irrecuperável. Os milhões de litros de água contaminados perdem-se, parte no subsolo, parte em piscinas a céu aberto, contaminando os lençóis freáticos e os aquíferos e o solo e deixando de atender a consumos nobres, como seriam o abastecimento humano, a dessedentação de animais, a pesca, a agricultura, a indústria e o lazer.
      Somente parte do metano liberado pelo fraturamento hidráulico – fracking – é aproveitado, permanecendo o restante livre, tornando água e solo passíveis de incêndios, contaminando o ar e prejudicando a saúde humana e o meio ambiente.
      Se não fosse o bastante, o gás liberado contribui para o aquecimento global e para as mudanças deletérias do clima, que põe em risco a sobrevivência de todas as formas de vida, inclusive a humana.
      Sobre os testes sísmicos, temos mais informações aqui: COESUS e 350.org Brasil alertam para os riscos e perigos dos testes sísmicos https://www.youtube.com/watch?v=t-FCgnTRQeI
      Mais aqui: http://naofrackingbrasil.com.br/o-que-e-fracking/

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